DO AMOR E DA
AMIZADE
Roda que roda
Caminho de chão
Em cada roda uma canção
Roda que roda
Caminho de flor
Em cada roda um grande amor
Roda que roda
Caminho em frente
Em cada roda canta a gente
Roda que roda
Caminho e leito
Em cada roda o nosso jeito
Roda que roda
Caminho e foz
Em cada roda vivemos nós
Percorre o meu
corpo
Feito de sonhos e labaredas
Devolve ao tempo
O labor das abelhas
Quando os dias
São de sementeira
Depois, em pleno sossego,
(Só assim vale a pena…)
Deixa as flores
Sorrirem
Ao lugar infinito
Dos abraços
Passa o rio
sobre nós
Uma corrente estranha, talvez
A água, no grito de ser foz
Também é silêncio que não lês
Passa o rio sobre a mão
Espelho de um futuro desejado
A água, no calor forte do coração
Também é frio no passado
Procura-me no
silêncio dos gritos
De sangue
Aflitos
Na penumbra da inquieta madrugada.
Procura-me, mas não faças nada…
Procura-me nas noites de luar
No caos
Das rugas frenéticas
Na lágrima pousada.
Procura-me, mas não faças nada…
Procura-me no sonho louco
Nas vazias avenidas
De paredes brancas
Ao som da trovoada.
Procura-me, mas não faças nada…
Procura-me e eu já não estou lá
Estou no lume
Dos vértices alinhados,
Nas mãos,
Nos corpos aprisionados,
Na raiva
Dos leitos desassossegados,
Talvez apenas e só
Numa linha que nunca foi traçada.
Procura-me, mas não faças nada…
Cantarei de novo
o sangue do amor
Pelas avenidas cheias da força de
nós
Cada passo mais, o lugar certo e
maior
Deste rio que teima em ser feliz
na foz
Lutarei p’lo tempo das madrugadas
em flor
Como uma criança que brinca sem
parar
Cada passo mais, o lugar certo e
maior
Desta foz que abraça forte e se
perde no mar
Serei vento em ti, arma cantiga
sem pudor
Porque a vida é isto: poema eterno
e puro
Cada passo mais, o lugar certo e
maior
Deste mar em mim que se faz agora
e futuro
Há flores
perdidas na tua pintura
Caminhos que os teus olhos
procuram
E eu, no aroma da nossa ternura,
Encontro as cores que nos
perduram.
Levo os versos infinitos
Ao sabor da maré forte
Levo os beijos e os gritos
As dores da vida e da morte
Levo ruínas e saudade
E tudo o mais que já vivi
Amor e amizade
E o meu sangue em ti
Essa fome que nos alimenta e cura
Nas flores perdidas da tua pintura
Sobre o brilho
das águas do rio
Os meus passos podem ser de dança
E o coração fraco e vadio
Deseja de novo o amor criança
Aquele toque de ternura
De uma bela e quente descoberta
Onde reina a delicadeza e a doçura
Onde o desejo é uma ânsia que
aperta
Aquele pequeno sabor sem fim
Que faz do mundo uma eterna casa
Que brota poemas dentro de mim
No aconchego de uma saudade já em
brasa
De um impulso quem sabe bem louco
Ou tão somente perdido num grito
mudo
Dos olhos que sabem sempre a pouco
Dos dias que sabem sempre a tudo
Trago um beijo
perdido
Em sonhos e ousadias
Quem sabe um calor esquecido
Que alimenta as noites e dias
Trago um desejo escondido
Nos versos da minha mão
Quem sabe um calor esquecido
No cansado e dorido coração
Trago um lugar ainda dorido
Que brilha forte no escuro
Quem sabe um calor esquecido
De cada vez que te procuro
Jorram sonhos
sobre o chão
Pleno de migalhas
E despojos dos desejos
Mais secretos.
Caem sobre nós
Os restos perdidos
De uma solidão quente
Em corpos inquietos.
Talvez pedaços de vida
Como mantos de retalhos
Sobre o tanto
Que um dia se cantou.
As madrugadas sucessivas
Que nos olhos
Desaguaram
Como rios
Onde a fonte já secou.
Deixa-me
surpreender-te na noite anunciada
Levar-te ao doce abrigo do bater
do coração
Ser um cavaleiro de rosa e espada
O amante que se perde no tempo da
ilusão
Deixa que a poesia morra
lentamente
Talvez nos lábios dos beijos por
dar
Talvez ao sabor de uma loucura
presente
Que se abre a nós como uma nuvem
de par em par
Deixa que a vida nos leve de
regresso ao infinito
Àquele momento único do sorriso
aberto
Na roda de saia que dança o meu
grito
E que depois me adormece num
abraço deserto
Avança devagar que há um bule a
partir
Não risques os sonhos com desenhos
sem sentido
um dia, quem sabe, saberei se novo
sorrir
À passagem do amor que me foi já
perdido
Pode ser que
as sombras se pintem
Se transformem num enorme e
infinito mar
Pode ser que as sombras te acolham
O fruto que tens no peito para
tanto amar
Pode ser que as sombras se
transformem
Numa grande história ao redor do
seu enredo
Pode ser que as sombras te acolham
As sementes que tens em ti à
deriva do medo
Pode ser que as sombras se fundam
Nas telas que o teu coração traz
ao amanhecer
Pode ser que as sombras te acolham
O futuro nos passos de uma viagem
por fazer
Rompes o
silêncio
Na inquieta prisão
Em mais um dia em vão
Em que o futuro se perde aqui
Rompes o silêncio
E nem sequer te procuras a ti
Chamas pelas mãos
Nas ruas de um passado
Perdido e já morto
Na noite em que te fugi
Chamas pelas mãos
E nem sequer te procuras a ti
Cais na raiva de estar
Na penumbra dos caminhos
Que se fundem nos fantasmas
Daquele parto que nunca te servi
Cais na raiva de estar
E nem sequer te procuras a ti
Leva o meu
corpo
Sobre o tempo dos silêncios
Urge a água e a terra
O fogo e a erva
Sobre a pedra das histórias
ancestrais
Leva o meu corpo
No teu cais
Leva o meu corpo
Nas ruas perdidas da grande cidade
A mão da Núria
E o voo
As manhãs das novas tentativas
Leva o meu corpo
Para que vivas
Leva o meu corpo
Tão fraco das viagens
E tão forte das viagens
O caos secreto da nova estrada
Leva o meu corpo
Não me peças nada
Leva o meu corpo
O rio plantado em mim
As pontes e os passos
De lá para cá
De cá para lá
Brilhante como um colar
Leva o meu corpo
Mas deixa-me ficar
Canção do
Coração.
Todo o coração
Está coberto de razão
Ele é vento e erosão
Terra firme e raiz forte
Vejo um brilho
no teu peito
está escondido
e eu respeito
apagaste a lamparina
por preguiça e despeito
refrão
O meu coração
Já foi fogo
Já foi lava e vulcão.
Agora é triste basalto
Rocha fria e escuridão.
Vem deitar-te no meu braço
Pegar fogo com bagaço
Desenhar só mais um traço
E deixar acontecer
Resgata em mim
O que foi de ti
Não deixes morrer na aurora
Faz-me tua aqui e agora
Há-de haver
uma noite
Em que estar a teu lado será lua
Iluminando o carinho doce das mãos
Que ainda se perdem no vazio da
rua
Há-de haver uma noite
Em que as praias serão abrigo
certo
Perdendo o tempo todo dos nossos
ventos
Aqueles que nos trazem de novo
para perto
Para quê a noite assim
Entre medos, desejos e silêncios
de olhar forte?
Talvez seja hora de amanhecer a
alma
Que nos une num leito solto que
nos conforte
Talvez seja dia outra vez
Quem sabe no alto do nosso viver
Porque as noites são cantos em mim
Sempre que contigo fico pelo nosso
anoitecer.
Acreditas no
amor, Pequeno Príncipe?
Qual, Pequena Pantera?
O amor. O verdadeiro amor.
Depende...
Depende?
Sim, depende.
Depende de quê?
Da idade.
Da idade?!!! Do amor?
Não. Dos amantes.
E porque dizes isso, Pequeno
Príncipe?
Ora, porque o amor não é sempre
igual, Pequena Pantera.
O verdadeiro, certo?
Sim. Certo.
Então acreditas no amor...
Não disse isso. Disse que depende.
Por isso mesmo...
Desculpa?
Sim. Se não acreditasses no amor
não vinhas com essa história da idade. Olha, a propósito: porque puseste uma
fotografia de uma casa em ruínas neste texto?
Fui...
Rasga esta
noite de silêncios quentes
Para que sossegue a vertigem que
trago no corpo
Amarra o soluço e a ira
E deixa uma flor sobre mim.
Posso ser cinza, posso ser jardim…
Contempla, simplesmente, sem pedir
nada
Que a vida está para além dos teus
olhos
Faminta e livre
Em cada canto da sua prisão.
Posso ser cinza, posso ser chão…
O teu corpo
dança sobre o mundo
Como aquele pássaro solene
Que brinca e seduz
Vai a alma junto ao sabor do
cheiro
Das flores do teu olhar
E tudo é muito mais que luz
O teu corpo dança sobre a vida
Como a grande árvore do penhasco
Para onde tudo me conduz
Vai o sangue no seu rio de fome
Pelo leito das acácias
E tudo é muito mais que luz
O teu corpo dança sobre o ser
Como as voltas das nuvens efémeras
Que pintam muito mais do que supus
Vai o sonho penetrando sem
permissão
Nas curvas fortes das ilusões
E tudo é muito mais que luz
Que de um voo
se faz caminho
Onde algures, quem sabe, uma voz
Apenas na inquieta fome de ser
carinho
No grito silencioso de um rio na
foz
Que de um céu se faz castelo
Nos vértices de cada saudade
Apenas na inquieta fome de ser
belo
O amor que fica vagueando pelos
cantos da cidade
Que de um lugar nosso se faz
eterno
Por ventos e mares que sempre
enjeito
Apenas na inquieta fome do tanto
que é o inverno
Que queima a primavera que nasce
no meu peito
O âmago das
cicatrizes
Raiam nos lugares abençoados da
mão
Rompem pelos dias felizes
Com o sopro tímido do coração
Com a alma de um desassossego
forte
Que nos empurra para dentro das
cores da morte
O âmago de nós em forma crua
Tal os mistérios das avenidas
grossas
Por fora e por dentro, a mesma
vertigem nua
Das voltas que ainda fazemos
nossas
Com a alma das cores da morte
Que nos empurra para um
desassossego forte
Esquecido no
caos da terra
Silêncio sobre o corpo nu
O medo tão fundo como tu
Por entre as ruínas e a guerra
Planta um abraço em semente
Pode ser abraço terno e forte
Um voo liberto no alcance do norte
Onde vivam amores de toda a gente
O campo de
flores sobre o olhar
Janelas e rostos prontos na palma
da mão
Há um mundo inteiro por peneirar
À luz da tua alma e do teu coração
A casa sobre o sol a espreitar
Pronta que está, sedenta no seu
despiste
Há um mundo inteiro por peneirar
No alto de um corpo que recusa ser
triste
O futuro é um ponto só para
alcançar
Que está pronto o leito feito
ninho
Há um mundo inteiro por peneirar
E este é mesmo o teu caminho!
Há uma luz no
meu caminho
Mesmo quando chegas demasiadamente
perto.
Um sussurro que chega de mansinho
Uma flor a crescer no deserto.
Há uma luz no meu olhar
Quando cantas só para mim.
E fico simplesmente a ver-te
cantar
Como se isso nunca chegasse ao
fim.
Há uma luz na palma da minha mão
Quando pedes que as tuas sejam
minhas.
E tu vais dizendo na tua
sofreguidão
Que fique aqui, contemplando as
andorinhas.
Há uma luz no fundo deste sonho
meu
Semeado tantos mares em versos de
amor.
O comboio nem sequer estremeceu
Nos vazios que amparam a dor.
Há uma luz quando quero a minha
vida
Mesmo que sejam secas as
caminhadas.
Por isso é que me perco nas
avenidas
Quando se dão à luz das
madrugadas!
Jorra o tempo
sobre o leito
Uma corrente feita amor, feita
prisão
Ficam silêncios por preencher
E uma árvore perdida na solidão
Corre o tempo pelo emaranhado
De um fogo que me ardeu na mão
Fica o frio gritando a saudade
E uma árvore perdida na solidão
Falta-me a tua história ecoando na
foz
Deste rio que se espalha pelo chão
Fica um desassossego sem rosto
E uma árvore perdida na solidão
Falta-me a tua história do tanto
que é fonte
Em tudo o que me aconchega a
inquietação
Ficam apenas vazios de nada querer
E uma árvore perdida na solidão
Acresce ao
sabor do tempo
O desejo quente das passadas
O alvoroço nos canteiros
Das sementes nunca pisadas
Acresce ao sabor de mim
O sangue deambulante nas entradas
As escamas da flor em desespero
Das manhãs silenciosas e não
amadas
Acresce ao sabor de ti
A triste ausência das horas
ocupadas
O perfume que se derrama sem
certeza
Do futuro em fomes já
ultrapassadas
Trazes o tempo
nas mãos
Em versos soltos nos teus olhos
Procuras o toque a medo
Escorregas sobre o voo
Resolves miragens
E depois choras…
Porque então o caos
No vazio tão cheio da virtude?
Porque a inquieta procura
Nas frases escolhidas?
Porque o lugar?
Um dia serás flor.