domingo, 24 de setembro de 2017

POESIA DE PEDRO BRANCO























PODE SER

Pode ser que os dias sejam apenas ilusões
Pode ser que cada sonho se limite ao sumo das canções
Pode ser que um poema consiga abrir o mar
Pode ser que cada segundo seja magia no amar...

Pode ser que a vida tenha paz
Em tudo o que faço e sou capaz
Pode ser que grite um sussurro em ti
Só para te dizer que estou aqui...

Pode ser que a alma se distraia demais
Pode ser que a partida se faça ao sabor do cais
Pode ser que o meu corpo não aguente
Pode ser que o passado ainda se veja lá à frente...

Pode ser tudo, pode ser nada
Cada mistério, uma nova estrada
O suor da ternura abençoada
Que se faz ao mundo, que se faz à estrada...
Pode ser..
 
 

DO AMOR E DA AMIZADE

 

Roda que roda

Caminho de chão

Em cada roda uma canção

 

Roda que roda

Caminho de flor

Em cada roda um grande amor

 

Roda que roda

Caminho em frente

Em cada roda canta a gente

 

Roda que roda

Caminho e leito

Em cada roda o nosso jeito

 

Roda que roda

Caminho e foz

Em cada roda vivemos nós

 

Percorre o meu corpo

Feito de sonhos e labaredas

Devolve ao tempo

O labor das abelhas

Quando os dias

São de sementeira

 

Depois, em pleno sossego,

(Só assim vale a pena…)

Deixa as flores

Sorrirem

Ao lugar infinito

Dos abraços

 

Passa o rio sobre nós

Uma corrente estranha, talvez

A água, no grito de ser foz

Também é silêncio que não lês

 

 

 

 

Passa o rio sobre a mão

Espelho de um futuro desejado

A água, no calor forte do coração

Também é frio no passado

 

Procura-me no silêncio dos gritos

De sangue

Aflitos

Na penumbra da inquieta madrugada.

Procura-me, mas não faças nada…

Procura-me nas noites de luar

 

No caos

Das rugas frenéticas

Na lágrima pousada.

Procura-me, mas não faças nada…

 

Procura-me no sonho louco

Nas vazias avenidas

De paredes brancas

Ao som da trovoada.

Procura-me, mas não faças nada…

 

Procura-me e eu já não estou lá

Estou no lume

Dos vértices alinhados,

Nas mãos,

Nos corpos aprisionados,

Na raiva

Dos leitos desassossegados,

Talvez apenas e só

Numa linha que nunca foi traçada.

Procura-me, mas não faças nada…

 

Cantarei de novo o sangue do amor

Pelas avenidas cheias da força de nós

Cada passo mais, o lugar certo e maior

Deste rio que teima em ser feliz na foz

 

Lutarei p’lo tempo das madrugadas em flor

Como uma criança que brinca sem parar

Cada passo mais, o lugar certo e maior

Desta foz que abraça forte e se perde no mar

 

Serei vento em ti, arma cantiga sem pudor

Porque a vida é isto: poema eterno e puro

Cada passo mais, o lugar certo e maior

Deste mar em mim que se faz agora e futuro

 

Há flores perdidas na tua pintura

Caminhos que os teus olhos procuram

E eu, no aroma da nossa ternura,

Encontro as cores que nos perduram.

Levo os versos infinitos

Ao sabor da maré forte

Levo os beijos e os gritos

As dores da vida e da morte

Levo ruínas e saudade

E tudo o mais que já vivi

Amor e amizade

E o meu sangue em ti

Essa fome que nos alimenta e cura

Nas flores perdidas da tua pintura

 

Sobre o brilho das águas do rio

Os meus passos podem ser de dança

E o coração fraco e vadio

Deseja de novo o amor criança

Aquele toque de ternura

De uma bela e quente descoberta

Onde reina a delicadeza e a doçura

Onde o desejo é uma ânsia que aperta

Aquele pequeno sabor sem fim

Que faz do mundo uma eterna casa

Que brota poemas dentro de mim

No aconchego de uma saudade já em brasa

De um impulso quem sabe bem louco

Ou tão somente perdido num grito mudo

Dos olhos que sabem sempre a pouco

Dos dias que sabem sempre a tudo

 

Trago um beijo perdido

Em sonhos e ousadias

Quem sabe um calor esquecido

Que alimenta as noites e dias

 

Trago um desejo escondido

Nos versos da minha mão

Quem sabe um calor esquecido

No cansado e dorido coração

 

Trago um lugar ainda dorido

Que brilha forte no escuro

Quem sabe um calor esquecido

De cada vez que te procuro

 

 

Jorram sonhos sobre o chão

Pleno de migalhas

E despojos dos desejos

Mais secretos.

Caem sobre nós

Os restos perdidos

De uma solidão quente

Em corpos inquietos.

Talvez pedaços de vida

Como mantos de retalhos

Sobre o tanto

Que um dia se cantou.

As madrugadas sucessivas

Que nos olhos

Desaguaram

Como rios

Onde a fonte já secou.

 

Deixa-me surpreender-te na noite anunciada

Levar-te ao doce abrigo do bater do coração

Ser um cavaleiro de rosa e espada

O amante que se perde no tempo da ilusão

 

Deixa que a poesia morra lentamente

Talvez nos lábios dos beijos por dar

Talvez ao sabor de uma loucura presente

Que se abre a nós como uma nuvem de par em par

 

Deixa que a vida nos leve de regresso ao infinito

Àquele momento único do sorriso aberto

Na roda de saia que dança o meu grito

E que depois me adormece num abraço deserto

 

Avança devagar que há um bule a partir

Não risques os sonhos com desenhos sem sentido

um dia, quem sabe, saberei se novo sorrir

À passagem do amor que me foi já perdido

 

Pode ser que as sombras se pintem

Se transformem num enorme e infinito mar

Pode ser que as sombras te acolham

O fruto que tens no peito para tanto amar

 

Pode ser que as sombras se transformem

Numa grande história ao redor do seu enredo

Pode ser que as sombras te acolham

As sementes que tens em ti à deriva do medo

 

 

Pode ser que as sombras se fundam

Nas telas que o teu coração traz ao amanhecer

Pode ser que as sombras te acolham

O futuro nos passos de uma viagem por fazer

 

Rompes o silêncio

Na inquieta prisão

Em mais um dia em vão

Em que o futuro se perde aqui

Rompes o silêncio

E nem sequer te procuras a ti

 

Chamas pelas mãos

Nas ruas de um passado

Perdido e já morto

Na noite em que te fugi

Chamas pelas mãos

E nem sequer te procuras a ti

 

Cais na raiva de estar

Na penumbra dos caminhos

Que se fundem nos fantasmas

Daquele parto que nunca te servi

Cais na raiva de estar

E nem sequer te procuras a ti

 

Leva o meu corpo

Sobre o tempo dos silêncios

Urge a água e a terra

O fogo e a erva

Sobre a pedra das histórias ancestrais

Leva o meu corpo

No teu cais

 

Leva o meu corpo

Nas ruas perdidas da grande cidade

A mão da Núria

E o voo

As manhãs das novas tentativas

Leva o meu corpo

Para que vivas

 

Leva o meu corpo

Tão fraco das viagens

E tão forte das viagens

O caos secreto da nova estrada

Leva o meu corpo

Não me peças nada

 

Leva o meu corpo

O rio plantado em mim

As pontes e os passos

De lá para cá

De cá para lá

Brilhante como um colar

Leva o meu corpo

Mas deixa-me ficar

 

Canção do Coração.

Todo o coração

Está coberto de razão

Ele é vento e erosão

Terra firme e raiz forte

 

Vejo um brilho

no teu peito

está escondido

e eu respeito

apagaste a lamparina

por preguiça e despeito

 

refrão

O meu coração

Já foi fogo

Já foi lava e vulcão.

Agora é triste basalto

Rocha fria e escuridão.

 

Vem deitar-te no meu braço

Pegar fogo com bagaço

Desenhar só mais um traço

E deixar acontecer

 

Resgata em mim

O que foi de ti

Não deixes morrer na aurora

Faz-me tua aqui e agora

 

Há-de haver uma noite

Em que estar a teu lado será lua

Iluminando o carinho doce das mãos

Que ainda se perdem no vazio da rua

 

Há-de haver uma noite

Em que as praias serão abrigo certo

Perdendo o tempo todo dos nossos ventos

Aqueles que nos trazem de novo para perto

 

Para quê a noite assim

Entre medos, desejos e silêncios de olhar forte?

Talvez seja hora de amanhecer a alma

Que nos une num leito solto que nos conforte

 

Talvez seja dia outra vez

Quem sabe no alto do nosso viver

Porque as noites são cantos em mim

Sempre que contigo fico pelo nosso anoitecer.

 

Acreditas no amor, Pequeno Príncipe?

Qual, Pequena Pantera?

O amor. O verdadeiro amor.

Depende...

Depende?

Sim, depende.

Depende de quê?

Da idade.

Da idade?!!! Do amor?

Não. Dos amantes.

E porque dizes isso, Pequeno Príncipe?

Ora, porque o amor não é sempre igual, Pequena Pantera.

O verdadeiro, certo?

Sim. Certo.

Então acreditas no amor...

Não disse isso. Disse que depende.

Por isso mesmo...

Desculpa?

Sim. Se não acreditasses no amor não vinhas com essa história da idade. Olha, a propósito: porque puseste uma fotografia de uma casa em ruínas neste texto?

Fui...

 

Rasga esta noite de silêncios quentes

Para que sossegue a vertigem que trago no corpo

Amarra o soluço e a ira

E deixa uma flor sobre mim.

Posso ser cinza, posso ser jardim…

 

Contempla, simplesmente, sem pedir nada

Que a vida está para além dos teus olhos

Faminta e livre

Em cada canto da sua prisão.

Posso ser cinza, posso ser chão…

 

 

 

 

 

 

O teu corpo dança sobre o mundo

Como aquele pássaro solene

Que brinca e seduz

Vai a alma junto ao sabor do cheiro

Das flores do teu olhar

E tudo é muito mais que luz

 

O teu corpo dança sobre a vida

Como a grande árvore do penhasco

Para onde tudo me conduz

Vai o sangue no seu rio de fome

Pelo leito das acácias

E tudo é muito mais que luz

 

O teu corpo dança sobre o ser

Como as voltas das nuvens efémeras

Que pintam muito mais do que supus

Vai o sonho penetrando sem permissão

Nas curvas fortes das ilusões

E tudo é muito mais que luz

 

Que de um voo se faz caminho

Onde algures, quem sabe, uma voz

Apenas na inquieta fome de ser carinho

No grito silencioso de um rio na foz

 

Que de um céu se faz castelo

Nos vértices de cada saudade

Apenas na inquieta fome de ser belo

O amor que fica vagueando pelos cantos da cidade

 

Que de um lugar nosso se faz eterno

Por ventos e mares que sempre enjeito

Apenas na inquieta fome do tanto que é o inverno

Que queima a primavera que nasce no meu peito

 

O âmago das cicatrizes

Raiam nos lugares abençoados da mão

Rompem pelos dias felizes

Com o sopro tímido do coração

Com a alma de um desassossego forte

Que nos empurra para dentro das cores da morte

 

O âmago de nós em forma crua

Tal os mistérios das avenidas grossas

Por fora e por dentro, a mesma vertigem nua

Das voltas que ainda fazemos nossas

Com a alma das cores da morte

Que nos empurra para um desassossego forte

Esquecido no caos da terra

Silêncio sobre o corpo nu

O medo tão fundo como tu

Por entre as ruínas e a guerra

 

Planta um abraço em semente

Pode ser abraço terno e forte

Um voo liberto no alcance do norte

Onde vivam amores de toda a gente

 

O campo de flores sobre o olhar

Janelas e rostos prontos na palma da mão

Há um mundo inteiro por peneirar

À luz da tua alma e do teu coração

 

A casa sobre o sol a espreitar

Pronta que está, sedenta no seu despiste

Há um mundo inteiro por peneirar

No alto de um corpo que recusa ser triste

 

O futuro é um ponto só para alcançar

Que está pronto o leito feito ninho

Há um mundo inteiro por peneirar

E este é mesmo o teu caminho!

 

Há uma luz no meu caminho

Mesmo quando chegas demasiadamente perto.

Um sussurro que chega de mansinho

Uma flor a crescer no deserto.

Há uma luz no meu olhar

Quando cantas só para mim.

E fico simplesmente a ver-te cantar

Como se isso nunca chegasse ao fim.

Há uma luz na palma da minha mão

Quando pedes que as tuas sejam minhas.

E tu vais dizendo na tua sofreguidão

Que fique aqui, contemplando as andorinhas.

Há uma luz no fundo deste sonho meu

Semeado tantos mares em versos de amor.

O comboio nem sequer estremeceu

Nos vazios que amparam a dor.

Há uma luz quando quero a minha vida

Mesmo que sejam secas as caminhadas.

Por isso é que me perco nas avenidas

Quando se dão à luz das madrugadas!

 

 

 

Jorra o tempo sobre o leito

Uma corrente feita amor, feita prisão

Ficam silêncios por preencher

E uma árvore perdida na solidão

 

Corre o tempo pelo emaranhado

De um fogo que me ardeu na mão

Fica o frio gritando a saudade

E uma árvore perdida na solidão

 

Falta-me a tua história ecoando na foz

Deste rio que se espalha pelo chão

Fica um desassossego sem rosto

E uma árvore perdida na solidão

 

Falta-me a tua história do tanto que é fonte

Em tudo o que me aconchega a inquietação

Ficam apenas vazios de nada querer

E uma árvore perdida na solidão

 

Acresce ao sabor do tempo

O desejo quente das passadas

O alvoroço nos canteiros

Das sementes nunca pisadas

 

Acresce ao sabor de mim

O sangue deambulante nas entradas

As escamas da flor em desespero

Das manhãs silenciosas e não amadas

 

Acresce ao sabor de ti

A triste ausência das horas ocupadas

O perfume que se derrama sem certeza

Do futuro em fomes já ultrapassadas

 

Trazes o tempo nas mãos

Em versos soltos nos teus olhos

Procuras o toque a medo

Escorregas sobre o voo

Resolves miragens

E depois choras…

Porque então o caos

No vazio tão cheio da virtude?

Porque a inquieta procura

Nas frases escolhidas?

Porque o lugar?

 

Um dia serás flor.

 

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