sábado, 3 de janeiro de 2026

POESIA DE CARLOS PERES FEIO

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 MORTE DE MANHÃ

é a que pode apanhar qualquer um

numa bela manhã,

preparando uma fatia de pão saloio

com doce de frutos vermelhos, escuros e doces,

que nos atiram para trás, para o odor da meninice,

da adolescência,

que meninice e adolescência são frutas da mesma árvore,

e doces.

 

é a que nos persegue toda a vida, digo,

todo o caminho,

como um míssil, daqueles que apontados ao alvo em voo,

não mais o largam,

pois farejam a fonte de calor,

que nas guerras sobre golfos, são tubos incandescentes,

vomitando gases da combustão do jp4,

e que na nossa vida toda,

também farejam a fonte de calor, que é sempre o coração

e raramente o cérebro.

 

HOMENAGEM AOS RÉPTEIS

nascer com sina de ter sangue-frio

é tarefa para que muitos se treinam

sem chegarem a nascer

sente-se o deslizar

da pele a roçar as ervas

em economia de sons

começa a fazer sentido

o sangue o som e a viagem

 

saudemos o fim da tarde

provoquemos os bem-comportados

para que de nós se digam

cobras e lagartos

 

LUGAR DE CRIAÇÃO

para a escrita não basta

a caneta

o papel pode ser

obrigatório

mas mais necessário

é o lugar da criação

no momento fatal

o som certo

nem sempre música

uma esfera envolvente não identificada

 

então o tremor interno

e a poesia

sai-te da mão

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