MORTE DE MANHÃ
é a que pode apanhar qualquer um
numa bela manhã,
preparando uma fatia de pão saloio
com doce de frutos vermelhos, escuros e doces,
que nos atiram para trás, para o odor da meninice,
da adolescência,
que meninice e adolescência são frutas da mesma árvore,
e doces.
é a que nos persegue toda a vida, digo,
todo o caminho,
como um míssil, daqueles que apontados ao alvo em voo,
não mais o largam,
pois farejam a fonte de calor,
que nas guerras sobre golfos, são tubos incandescentes,
vomitando gases da combustão do jp4,
e que na nossa vida toda,
também farejam a fonte de calor, que é sempre o coração
e raramente o cérebro.
HOMENAGEM AOS RÉPTEIS
nascer com sina de ter sangue-frio
é tarefa para que muitos se treinam
sem chegarem a nascer
sente-se o deslizar
da pele a roçar as ervas
em economia de sons
começa a fazer sentido
o sangue o som e a viagem
saudemos o fim da tarde
provoquemos os bem-comportados
para que de nós se digam
cobras e lagartos
LUGAR DE CRIAÇÃO
para a escrita não basta
a caneta
o papel pode ser
obrigatório
mas mais necessário
é o lugar da criação
no momento fatal
o som certo
nem sempre música
uma esfera envolvente não identificada
então o tremor interno
e a poesia
sai-te da mão

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