BELEZA VELHA
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
2 POEMAS de Ângelo Rodrigues
BELEZA VELHA
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
PIPA PIPO PITA APITO PIA PRATO PARTO - Arthur Santos
será que podias apipor?
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
POUCO PASSAVA DAS OITO HORAS DA MANHÃ Odete Santos Silva
Pouco passava das oito horas da manhã, o transito para a Ponte estava caótico, carros dum lado, carros do outro, carros no meio.
Esperei calmamente a minha vez para conseguir entrar na fila. Junto duma passadeira para peões, parei civilizadamente e deixei um espaço para alguém que quisesse atravessar a rua.
Eis senão quando um carro vindo de lá detrás me ultrapassa e se posiciona à minha frente em cima da passadeira.
Como o transito estava parado, saí do meu carro e dirigi-me ao carro da frente
– o senhor já viu o que fez? Ultrapassou toda a gente e não satisfeito estaciona em cima da passadeira
Sem esperar resposta voltei para o meu carro.
Acto imediato o jovem saiu do carro dele, chegou junto de mim a pedir-me para baixar o vidro da janela e em seguida disse-me com ar simpático
– Desculpe vóvó, desculpe, juro que não me apercebi. Olhei para ele e disse-lhe com ar mais ou menos sisudo
- oiça, você hoje já me estragou o dia duas vezes!
- Duas vezes, como assim?
- Olhe, primeiro, ultrapassou-me e agora está a chamar-me de vóvó!
Ele levou as mãos à cabeça e exclamou
- óh Vóvó eu sou um desastrado, sou mesmo um desastrado, um desastrado...
entretanto a fila andou e eu ria divertida. Claro que gosto de ser vovó.
PROCURA-SE GENTE COM CORAÇÃO - Arthur Santos
Procura-se gente com coração!
não, não...
não é esse coração
que me convém
esse toda a gente tem.
procura-se gente com outros corações...
aqueles que estão ligados às emoções
todos os dias
sem recurso a tecnologias!
aqueles que falam verdade
e que cultivam a amizade!
aqueles que não sabem ser cruéis
e são fieis.
aqueles que sabem o valor
do amor.
aqueles que são apaixonantes
e que... não admitem transplantes.
sim é desses corações que se procura.
faz falta mais ternura.
procura-se gente com coração!
©ArturSantos2017
GENERALIZAÇŌES ABUSIVAS - Arthur Santos
Mariana Mortágua: “Portugal é xenófobo e racista, embora goste de viver na ilusão e na narrativa de que não o é”
O caralho, dada a sua situação numa área de muita instabilidade (no alto do mastro) era onde se manifestava com maior intensidade o rolamento ou movimento lateral de um barco.
Também era considerado um lugar de castigo para aqueles marinheiros que cometiam alguma infracção a bordo.
O castigado era enviado para cumprir horas e até dias inteiros no caralho e quando descia ficava tão enjoado que se mantinha tranquilo por um bom par de dias. Daí surgiu a expressão:
-Vai pró caralho!
terça-feira, 26 de setembro de 2017
A TÉCNICA DO MARMELO - Arthur Santos
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
A DANÇA Ana Freitas
quero entrar nessa dança e contigo bailar
como se em Buenos Aires te revisitasse
percorrer-te numa valsa nos jardins de Schönbrun
Viena seria então a nossa cidade e o Danúbio espelharia azul
deter-te na espontaneidade e volúpia duma chula ou dum forró
até que a música cedesse de cansaço
ao som do acordeão atrevermo-nos num corridinho
rodopiarmos no vira
e perdermo-nos no encontro das voltas
serias o meu par e a nossa leveza
fusão
2 POEMAS de Rosário Serrado Freitas
Por mar, por terra
nas asas do vento
milhares abandonaram a terra amada
quais bandos de aves
em migração forçada
segurança e paz procurando
coração ferido pela partida indesejada
aportaram em destinos
nunca apetecidos.
Lágrimas contidas
num esgar que se queria sorriso
para os mais jovens sossegar
abraços sentidos
revelam a saudade entranhada
o medo do futuro
a necessidade do recomeço
a promessa dum breve regresso
aos poucos se desvanece…
neste chão a Norte
a pátria foi e é
a língua portuguesa.
A POESIA É PAIXÃO
A poesia é paixão
é amor verdadeiro
o bater do coração
o sentimento por inteiro
Quem ama a poesia
vive um mundo diferente
cada momento aprecia
com o corpo e a mente
Atento e desperto
aos desvarios da humanidade
aprecia na natureza
toda a sua simplicidade.
A MAGIA DA LUA Alzira Carrilho
MANIFESTO ANTI LEITURA José Fanha
ANDAM POR AÍ ELEMENTOS SUSPEITOS QUE SE ESCONDEM NAS SOMBRAS DAS BIBLIOTECAS E CHEGAM A IR AS ESCOLAS PARA ESPALHAR UM VÍCIO TERRÍVEL E ABOMINÁVEL ESPECIALMENTE JUNTO DOS MAIS NOVOS! DOS MAIS TENROS! DOS MAIS INGÉNUOS! UM VÍCIO QUE SE CHAMA
LEITURA!
OS PASSADORES DESSA DROGA DURA, OS DEALERS DA LEITURA TRANSFORMAM SIMPLES CIDADÃOS EM LEITORES! EM MORTOS VIVOS! EM GENTE QUE ENTREGA A SUA VIDA AOS LIVROS, ÀS HISTÓRIAS, AOS ROMANCES, AOS POEMAS, GENTE QUE SE ESQUECE DE TUDO O MAIS!
ABAIXO A LEITURA, PIM!
O LEITOR É UM VICIADO!
O LEITOR SE ESQUECE DE TUDO MAIS SÓ PARA LER!
CUIDADO COM ELES! PORQUE O PIOR DE TUDO É QUE A LEITURA PEGA-SE! CUIDADO COM OS LEITORES! AFASTAI-OS DE VÓS! PROTEGEI VOSSOS FILHOS!
MORRA A LEITURA, MORRA! PIM!
UMA GERAÇÃO QUE LÊ É UMA GERAÇÃO QUE PENSA!
UMA GERAÇÃO QUE LÊ É UMA GERAÇÃO QUE DUVIDA!
UMA GERAÇÃO QUE LÊ É UMA GERAÇÃO QUE QUESTIONA!
UMA GERAÇÃO QUE LÊ É UMA GERAÇÃO QUE CRITICA!
UMA GERAÇÃO QUE PENSA E DUVIDA E QUESTIONA E CRITICA NÃO ENGOLE QUALQUER PATRANHA QUE LHE QUEIRAM ENFIAR! NÃO OBEDECE! NÃO SE BAIXA! NÃO SE CALA! UMA GERAÇÃO QUE LÊ E PENSA É UM PERIGO PARA A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL E PARA O PAÍS!
ABAIXO OS LEITORES!
ESTA GENTINHA PÕE-SE A LER EM VEZ DE TRABALHAR, DE VERTER O SEU SUOR A BEM DA NAÇÃO, DE ACEITAR PACIENTE E RESPONSAVELMENTE QUE LHE RETIREM A ASSISTÊNCIA MÉDICA, O SUBSÍDIO DE DOENÇA, A REFORMA, O TEATRO, A MÚSICA! AS CUECAS, SE NECESSÁRIO FOR!
ESTA GENTINHA QUE LÊ PERDE-SE A INTERROGAR AS MEDIDAS NECESSÁRIAS E URGENTES PARA O BEM DO MERCADO, DOS BANCOS, DOS ACIONISTAS QUE SÃO QUEM FAZ ANDAR O PAÍS!
QUEM LÊ AINDA POR CIMA DIVERTE-SE! ENTRETÉM-SE!
A LER, OS LEITORES VIAJAM! E APRENDEM! E REFLETEM! E RIEM! CHORAM! E SONHAM!
MORRA A LEITURA, PIM! PAM! PUM!
A LEITURA FAZ CONHECER PERSONAGENS IMORAIS COMO O DÉBIL CARLOS DA MAIA E A
SERES INÚTEIS E IRREAIS COMO O GATO ZORBAS DA “GAIVOTA E DO GATO QUE A ENSINOU A VOAR”.
CRIATURAS ATREVIDAS, DESOBEDIENTES E REVOLUCIONÁRIAS COMO O JOÃO-SEM-MEDO, O PINÓQUIO, O TOM SAWYER, O OLIVER TWIST!
E LOUCOS COMO O CIGANO MELQUÍADES E O CORONEL BUENDÍA DOS “CEM ANOS DE SOLIDÃO”.
A LEITURA FAZ-NOS VIAJAR POR LUGARES MAL FREQUENTADOS COMO A ILHA DO TESOURO, O BECO DAS SARDINHEIRAS DO MÁRIO DE CARVALHO, OS MARES DO “MOBBY DICK”, A BUENOS AIRES DE BORGES, A PARIS DE MARCEL PROUST, A LONDRES DE OSCAR WILDE, A MOSCOVO DE TOLSTOI!
A LEITURA FAZ-NOS RIR DE PESSOAS SÉRIAS COMO O CONDE DE ABRANHOS, O SANCHO PANÇA OU O ESCRITURÁRIO BARTHLEBY.
JÁ PARA NÃO FALAR DOS AUTORES, MEU DEUS! ESSES SERES ABJETOS! OS ESCRITORES QUE ESCREVEM LIVROS E LIVROS SEM UM PINGO DE VERGONHA! DEVIAM SER PRESOS! ENCERRADOS NUM JARDIM ZOOLÓGICO! CONDENADOS AOS TRABALHOS FORÇADOS! À MORTE! À CADEIRA ELÉTRICA!
CAMÕES, POR EXEMPLO, ERA UM MARGINAL QUE ANDAVA SEMPRE À ESPADEIRADA. E SE FOSSE SÓ ISSO, AINDA PODÍAMOS PERDOAR. A LUTA, A PANCADARIA, A GUERRA NÃO SÃO REPROVÁVEIS. PODEM ATÉ TER UMA FUNÇÃO MUITO POSITIVA NA NOSSA SOCIEDADE!
MAS ESSE TAL CAMÕES ESCREVIA ENTRE ESPADEIRADAS!!! ESCREVIA ESTROFES E MAIS ESTROFES! SONETOS QUE ENCHEM LIVROS E QUE CONTINUAM A GASTAR PAPEL QUE PODIA SER POUPADO PARA FAZER PACOTES DE CASTANHAS OU RELATÓRIOS ANUAIS DA ADMINISTRAÇÃO DAS EMPRESAS.
E O BOCAGE? DIZIA IMPROPÉRIOS! PALAVRÕES! E ATÉ NA POESIA DEIXAVA A MARCA DA SUA POUCA VERGONHA! SE ESCREVESSE PORNOGRAFIA NÓS ACEITÁVAMOS ESSES PALAVRÕES! TINHAM UMA FUNÇÃO SOCIAL! MAS POESIA…!
E NÃO ESQUEÇAMOS ESSA HISTÉRICA E LOUCA FLORBELA ESPANCA, ESSA DESAVERGONHADA, ESSA GRANDE DOIDA, QUE QUERIA AMAR! DEIXAI-NOS RIR! SE AMASSE O SEU MARIDO UMA VEZ POR SEMANA CUMPRIA A SUA OBRIGAÇÃO! SE FOSSE AMANTE DO CHEFE LÁ DO ESCRITÓRIO, ESTAVA A CONTRIBUIR PARA UMA GESTÃO EQUILIBRADA DO PRODUTO INTERNO BRUTO! MAS NÃO! ELA VERTIA NOS VERSOS O SEU DESEJO DE AMAR ESTE, AQUELE, E MAIS O OUTRO!
E LEMBREMOS ÁLVARO DE CAMPOS QUE É UMA INVENÇÃO TORPE, UM SUJEITO QUE NUNCA EXISTIU DE FATO! PURO DELÍRIO! PERSONAGEM FRÁGIL E CONTRADITÓRIA! E RICARDO REIS QUE TAMBÉM NÃO EXISTIA! NEM ALBERTO CAEIRO! NEM BERNARDO SOARES!
TUDO OBRA DO DELÍRIO DO SR. FERNANDO PESSOA QUE ESCREVIA CARTAS DE AMOR DEVIA TER TIDO VERGONHA E DEDICAR-SE À SUA PROFISSÃO POBRE MAS HONRADA DE ESCRITURÁRIO! E DE MUITOS MAIS ESCRITORES PODERÍAMOS FALAR! GENTE HORRÍVEL, QUE SÓ GOSTA DE MEXER NA MISÉRIA E NA LAMA, GENTE CARREGADA DE MALDADE QUE NOS FALA DA QUEDA DOS ANJOS E DE AMORES DE PERDIÇÃO, DE BARRANCOS DE CEGOS, DE LOBOS QUE UIVAM, DE VERSÍCULOS SATÂNICOS!
E ATÉ QUANDO ESCREVEM SOBRE GENTE FELIZ, TEM DE SER GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS!
E HÁ QUEM OS LEIA! QUEM SOFRA COM ELES!
OS LIVROS DEVIAM SER RECICLADOS E TRANSFORMADOS EM LENÇOS DE PAPEL! EM SOLAS DE SAPATOS! EM BOLAS DE FUTEBOL! LIVRAI-VOS DE OS LER! OU MELHOR! QUEIMEM-NOS! LEMBREM-SE DAQUELES QUE AO LONGO DA HISTÓRIA TENTARAM SALVAR-NOS QUEIMANDO PILHAS E PILHAS DE LIVROS!
DIGAMOS COM ELES, ABAIXO OS LIVROS!
OS LIVROS FAZEM-NOS AFASTAR DA REALIDADE, DA ECONOMIA! DO MERCADO! DO FUTURO!
UMA PONTE É FEITA COM FERRO E CIMENTO E NÃO COM LIVROS!
NO TRIBUNAL, O ADVOGADO NÃO DEFENDE UM CRIMINOSO COM POESIA!
NA SALA DE OPERAÇÕES O CIRURGIÃO NÃO ABRE OS ÓRGÃOS DE UM DOENTE COM UM ROMANCE!
NINGUÉM SE DEIXA CORROMPER POR UM SONETO!
ABAIXO A PROSA! ABAIXO A POESIA! ABAIXO O ENSAIO!
MORRA A LEITURA, MORRA! PIM!
MORRA A LEITURA! MORRAM AS BIBLIOTECAS! PIM! PAM! PUM!
MAS HÁ ESPERANÇAS PARA O FUTURO!
POR ALGUMA RAZÃO MUITOS DOS NOSSOS MELHORES E MAIS IMPOLUTOS DIRIGENTES SÓ LEEM RESUMOS! OU EXTRATOS DA CONTA BANCÁRIA! QUANTO AO RESTO, NADA! NEM UMA PALAVRA! NEM UMA LINHA!
E QUANDO LHES PERGUNTAM O QUE ANDAM A LER, MUITO PERSPICAZMENTE, ELES INVENTAM TÍTULOS DE LIVROS QUE NÃO EXISTEM PARA LANÇAR O ENGANO E, QUIÇÁ, SALVAR ALGUÉM DOS TERRÍVEIS VÍCIOS DA LEITURA!
SIGAMOS O EXEMPLO QUE MUITOS DOS NOSSOS DIRIGENTES E GERENTES E GESTORES NOS APONTAM! HÁ QUE TER A CORAGEM DE DIZER BEM ALTO:
A LEITURA PREJUDICA GRAVEMENTE A IGNORÂNCIA!
E SEM IGNORÂNCIA O PAÍS NÃO PROGRIDE! NÃO CRESCEM OS JUROS! NÃO SE INVESTE NAS OFF-SHORES! O ESTADO NÃO VENDE EMPRESAS ABAIXO DO PREÇO AOS PARTICULARES! O PREÇO DA GASOLINA NÃO SOBE!
ACABEMOS DE VEZ COM A LEITURA!
SE PUSEREM UM LIVRO À VOSSA FRENTE, CAROS AMIGOS, CUIDADO! DESVIEM O OLHAR! NÃO ABRAM NEM UMA PÁGINA! PODE BASTAR UM VERSO PARA CONTAMINAR! UM HOMEM QUE LÊ PODE DESEJAR VIVER NUM MUNDO MELHOR! PODE DE REPENTE SENTIR AS LÁGRIMAS CORREREM-LHE PELA CARA ABAIXO! PODE QUERER SUBITAMENTE AJUDAR OS AFLITOS! PODE ABRAÇAR ESTUPIDAMENTE UM AMIGO OU BEIJAR OS LÁBIOS DE UMA RAPARIGA BELA COMO UM RAIO DE SOL A ILUMINAR A MAIS BELA ROSA DO JARDIM!
POR ISSO É PRECISO FECHAR AS PORTAS AOS ANTROS DE LEITURA! SABEMOS QUE PODE PARECER DOLOROSO MAS É FUNDAMENTAL ARRANCAR DE VEZ OS LIVROS DAS MÃOS DOS VICIADOS E IMPEDI-LOS DE LER UMA LINHA SEQUER! SE FOR PRECISO TAPAI-LHES OS OLHOS! É PRECISO PREPARAR O FUTURO DOS NOSSOS FILHOS! NÃO LHES DAR ILUSÕES, NEM SONHOS, NEM ALEGRIAS! NEM DÚVIDAS, NEM SABEDORIA, NEM NADA!
ABAIXO AS BIBLIOTECAS! ABAIXO OS LIVROS!
BALADA DAS ONZE E MEIA Joaquim Pessoa
Onze e meia: meia hora
para acabar este dia.
Meia hora ainda é hoje.
Meia hora é amanhã.
Às onze e meia da noite
vai haver muita pancada
num bar da rua das Pretas.
Vai haver muita mudança
nos decretos aprovados.
Às Onze e meia da noite
no quarto não se ouve nada
mas no berço uma criança
dorme o sono dos poetas
que andam subalimentados.
Às onze e meia da noite
direi vinte e três e trinta.
Acordo o galo vermelho
com dois murros no pescoço.
Canta, canta, meu pelintra
o dia de hoje é tão velho
que amanhã já estamos mortos.
Às onze e meia da noite
os Ódios nunca estão fartos.
Às onze e meia da noite
a morte anda lá por fora
a pedir contas à vida
e os polícias têm medo
da própria sombra que pisam.
Onze e meia. Está na hora.
No relógio ainda é cedo.
Os ponteiros não deslizam.
Às onze horas e meia
esperamos por amanhã.
Chega a noite para a ceia
com dois pezinhos de lã.
Passam gatunos, canalhas
com seus múltiplos perfis.
Caem corpos e navalhas
no silêncio dos lancis.
Onze e meia. A meia hora
que falta, nunca mais passa.
Não passa. Nunca mais passa.
Eu sei lá quanta desgraça
se apodera em meia hora
das ruelas e dos becos
que apodrecem na cidade!
São onze e meia. É agora
que os olhos verdes dos cegos
pressentem a claridade.
Às onze e meia da noite
o vento não bate à porta
nem quer saber de mais nada.
Às onze e meia da noite
no bar da rua das Pretas
continua a haver pancada.
Às onze e meia da noite
os cães disputam a dente
uma cadela aluada.
Às onze e meia da noite
há travestis no Rossio
à pesca dos marinheiros
que deixaram o navio
e fazem ondas de cio
no sangue dos paneleiros.
Bateram as onze e meia.
Só faltam trinta minutos.
Acende-se a lua cheia
na rua dos Sapateiros.
São onze e meia da noite
e eu quero ficar contigo
entre lençóis de algodão.
Fincar no flanco uma espora.
Cavalgar por meia hora.
Dar rédeas ao coração.
Às onze e meia da noite
é tempo de solidão.
E nas entranhas do medo
fazem-se filhos diversos.
Como um padeiro faz versos
ou um poeta faz pão.
Às onze e meia da noite.
Às onze e meia da noite
recebem-se embaixadores
e à mesma hora os porteiros
afugentam os trapeiros
vestidos de malfeitores.
Às onze e meia da noite
a Primavera passou-se
para o lado do Outono.
E uma Maria qualquer
nas alamedas do sono
cansada de ser mulher
às onze e meia matou-se.
Em ponto. São onze e meia.
Esta noite os redimidos
hão-de fazer por esquecer.
Bem comidos e bebidos
não tardam a adormecer.
E um frasco de comprimidos
na mesa de cabeceira
vai ajudar os sentidos
a cozer a bebedeira.
Às onze e meia da noite.
Às onze e meia da noite
num gabinete privado
(como a irmã cotovia)
o tipo que está ao lado
cantou tudo o que sabia
para subir de ordenado.
Às onze e meia da noite
rastejam cobras na lama
onde afocinham as putas
Senhoras Donas da Cama.
Mas as putas que são putas.
Não as que têm a fama.
São onze e meia da noite.
Já só falta meia hora.
Apenas trinta minutos.
Às onze e meia da noite
ponho a tristeza de lado
e uma gravata de seda.
Quero ouvir cantar o fado.
Quero dar uma facada
no galo da consciência.
Quero menos paciência
e um pouco mais de loucura.
E enquanto são onze e meia
ainda dura a pancada
no bar da rua das pretas
os putos fazem punhetas
em jeito de habilidade
apenas com quatro dedos.
E descobrem os segredos
de nascerem portugueses
filhos de um povo adiado.
Feitos aqui e agora.
Quando falta meia hora
para acabar o passado.
domingo, 24 de setembro de 2017
GOTA D'ÁGUA Carlos Cardoso Luís
A outra gota se une
Dão as mãos na descida
Estão preparadas para a vida
Que as vai levar ao cume
O par de gotas logo se multiplica
Geram um fio corrente
Juntam-se formam um charco
Estão maiores certamente
O charco encontra saída
Continua o caminho da vida
Descendo a serra inocente
Vários charcos a descer
Nem sempre paralelamente
Engrossam o correr alegre
Da água outrora gota
Agora á procura do leito
Num redemoinho imperfeito
A ultrapassar obstáculos barreiras
A alimentar árvores e flores
Deixando para trás amores
Num caminhar apressado
Contemplando as margens ao lado
A correr... correr sem parar
Cansada alegre sorridente
A gota multiplicou-se cresceu
Adulta água a descansar
No seu refugio final o mar
A NOITE... Isilda Marques
Chegou por entre os últimos
Raios de sol em bicos de pés
Na ponta do meu nariz
O teu perfume atordoava
Quando me davas beijos..
Sopravas nos ouvidos
As tuas palavras doces
Carícias de mãos pelos cabelos
Os nossos corpos num frenesim
Aninharam- se em sonho mágico
O amor era infinito .
A noite...
Apanhou-nos em voo louco
Abalados de desejo e paixão
Giramos à volta do mundo
Em abraços de prazer divino
Éramos a cor cintilante
O irradiar da loucura.
A noite...
Caiu sobre nós num manto
De mistério e névoa
De luz e penumbra
Eramos estrelas cadentes
No fio das emoções
A vertigem da ilusão.
A noite..
De lua enfeitiçada
escorregamos no buraco
Tão negro da solidão
Desarmamos o momento
Acordamos da ilusão
Efémera noite cravada
Na embriaguez dos sentidos
Que nos juntou caprichosa
A noite...
Separou-nos por entre
os raios de sol da madrugada
Tocou o relógio sem parar
Suspiramos de ausência
Esgotamos o nosso tempo
Numa só e estranha noite.
O BEIJO Mariana Loureiro
Sentei-me na relva orvalhada pela noite
respirei a liberdade da manhã
num acordar lento e rotineiro…
Estavas ali… respiravas pausadamente
absorvias os aromas inebriantes da primavera em flor...
Tocamos a mesma música
bebemos os sons do nosso olhar
há magia no ar quando as tuas mãos me vestem
de suspiros e gemidos
e eu te sussurro no ouvido palavras embrulhadas em paixão
sabores, afagos, amor
mensagens que os corpos emitem
quando os desejos se abraçam
e dentro de nós brilha um sol luzente
num beijo profundo, doce e ardente.
O beijo sela a nossa união
porque bonita é a flor da nossa paixão!
OUVI AS TUAS GARGALHADAS Manuela Clérigo
cobertas de sol
e já perto de mim
fizeste-me sentir
uma criança
pediste me
um sorriso
e eu dei te
pediste me
um abraço
e eu dei te
pediste me
a minha mão
e eu dei te
e sem me pedires
eu dei te
o meu amor
com a ternura e a
inocência
de uma criança
SINAIS DOS TEMPOS Margarida Cimbolini
Dias inquietos
noites de tempestade.
Por dentro um tremor surdo.
Gestos cortados à nascença .
Valerá a pena ??
A natureza inteira surge tranquila.
Espera...
Aparenta um gigante descansando .
Também ela se revolta calamitosa.....
O mundo ruge e grita sem bonança .......
Os Países degladiam-se... desequilíbrio ...
...maldade........ inveja...miséria ......
.e fortes riquezas...
Há menos crianças...que mal sabem brincar..
Os valores vacilam.
As famílias desfazem -se.
Na sede de poder o amor murcha.
As religiões proliferam....
Choram as almas...confusas se tornam as horas ..
Os dados estão lançados....
O pano verde ha-de desfazer-se...
O céu ficará murcho...
A lua o Sol tudo rodará sem limites...
Humanidade acorda ! e corre ...corre muito....
se olhares pra trás verás o futuro mil vezes pior...
Os dias andam inquietos !
É URGENTE Margarida Vieira
é urgente aquietar o infinito da terra quente
premente de lava laranja de fogo
e chispas de luz
que se ausentam como o vento norte
sempre que nos fustiga o rosto docemente
é urgente assumir as contradições de um tempo
que fervilha como champagne
derramado sobre taças de um cristal falante
pelas salinas do entontecimento
é urgente espalhar pétalas pelo corpo da deusa
pois todos os dias são dias sem véspera
para que o amor e a humanidade
se acasalem para sempre
PEIDO SEM FILTROS Carlos Mendes

Peido sem filtros
O peido do Sobral
foi magistral
Mesmo estando presente
O Sr Presidente
Não evitou
Que toda a gente
Gritasse
“viva o peido do Sobral”
A um peido embora fraco
Mas magistral
Único
Como o Sobral
ou menos peido
Tudo correu pelo melhor
Não fosse aquele peidinho
Que largou o Salvador
Naquele momento exacto
Em que ficou tudo
Estupefacto
Com o peido Magistral
Como só da o Sobral
Naquele palco solidário
De lindas apresentadoras
Quais senhoras doutoras
Diziam umas para as outras
“Este peido do Sobral
Foi de facto genial ”
Para acabar esta história
Estou de acordo com o
Sobral
Caguem pr’ aí avontade
E que
Viva Portugal
POESIA DE PEDRO BRANCO
Pode ser que cada sonho se limite ao sumo das canções
Pode ser que um poema consiga abrir o mar
Pode ser que cada segundo seja magia no amar...
Pode ser que a vida tenha paz
Em tudo o que faço e sou capaz
Pode ser que grite um sussurro em ti
Só para te dizer que estou aqui...
Pode ser que a alma se distraia demais
Pode ser que a partida se faça ao sabor do cais
Pode ser que o meu corpo não aguente
Pode ser que o passado ainda se veja lá à frente...
Pode ser tudo, pode ser nada
Cada mistério, uma nova estrada
O suor da ternura abençoada
Que se faz ao mundo, que se faz à estrada...
Pode ser..
DO AMOR E DA AMIZADE
Roda que roda
Caminho de chão
Em cada roda uma canção
Roda que roda
Caminho de flor
Em cada roda um grande amor
Roda que roda
Caminho em frente
Em cada roda canta a gente
Roda que roda
Caminho e leito
Em cada roda o nosso jeito
Roda que roda
Caminho e foz
Em cada roda vivemos nós
Percorre o meu corpo
Feito de sonhos e labaredas
Devolve ao tempo
O labor das abelhas
Quando os dias
São de sementeira
Depois, em pleno sossego,
(Só assim vale a pena…)
Deixa as flores
Sorrirem
Ao lugar infinito
Dos abraços
Passa o rio sobre nós
Uma corrente estranha, talvez
A água, no grito de ser foz
Também é silêncio que não lês
Passa o rio sobre a mão
Espelho de um futuro desejado
A água, no calor forte do coração
Também é frio no passado
Procura-me no silêncio dos gritos
De sangue
Aflitos
Na penumbra da inquieta madrugada.
Procura-me, mas não faças nada…
Procura-me nas noites de luar
No caos
Das rugas frenéticas
Na lágrima pousada.
Procura-me, mas não faças nada…
Procura-me no sonho louco
Nas vazias avenidas
De paredes brancas
Ao som da trovoada.
Procura-me, mas não faças nada…
Procura-me e eu já não estou lá
Estou no lume
Dos vértices alinhados,
Nas mãos,
Nos corpos aprisionados,
Na raiva
Dos leitos desassossegados,
Talvez apenas e só
Numa linha que nunca foi traçada.
Procura-me, mas não faças nada…
Cantarei de novo o sangue do amor
Pelas avenidas cheias da força de nós
Cada passo mais, o lugar certo e maior
Deste rio que teima em ser feliz na foz
Lutarei p’lo tempo das madrugadas em flor
Como uma criança que brinca sem parar
Cada passo mais, o lugar certo e maior
Desta foz que abraça forte e se perde no mar
Serei vento em ti, arma cantiga sem pudor
Porque a vida é isto: poema eterno e puro
Cada passo mais, o lugar certo e maior
Deste mar em mim que se faz agora e futuro
Há flores perdidas na tua pintura
Caminhos que os teus olhos procuram
E eu, no aroma da nossa ternura,
Encontro as cores que nos perduram.
Levo os versos infinitos
Ao sabor da maré forte
Levo os beijos e os gritos
As dores da vida e da morte
Levo ruínas e saudade
E tudo o mais que já vivi
Amor e amizade
E o meu sangue em ti
Essa fome que nos alimenta e cura
Nas flores perdidas da tua pintura
Sobre o brilho das águas do rio
Os meus passos podem ser de dança
E o coração fraco e vadio
Deseja de novo o amor criança
Aquele toque de ternura
De uma bela e quente descoberta
Onde reina a delicadeza e a doçura
Onde o desejo é uma ânsia que aperta
Aquele pequeno sabor sem fim
Que faz do mundo uma eterna casa
Que brota poemas dentro de mim
No aconchego de uma saudade já em brasa
De um impulso quem sabe bem louco
Ou tão somente perdido num grito mudo
Dos olhos que sabem sempre a pouco
Dos dias que sabem sempre a tudo
Trago um beijo perdido
Em sonhos e ousadias
Quem sabe um calor esquecido
Que alimenta as noites e dias
Trago um desejo escondido
Nos versos da minha mão
Quem sabe um calor esquecido
No cansado e dorido coração
Trago um lugar ainda dorido
Que brilha forte no escuro
Quem sabe um calor esquecido
De cada vez que te procuro
Jorram sonhos sobre o chão
Pleno de migalhas
E despojos dos desejos
Mais secretos.
Caem sobre nós
Os restos perdidos
De uma solidão quente
Em corpos inquietos.
Talvez pedaços de vida
Como mantos de retalhos
Sobre o tanto
Que um dia se cantou.
As madrugadas sucessivas
Que nos olhos
Desaguaram
Como rios
Onde a fonte já secou.
Deixa-me surpreender-te na noite anunciada
Levar-te ao doce abrigo do bater do coração
Ser um cavaleiro de rosa e espada
O amante que se perde no tempo da ilusão
Deixa que a poesia morra lentamente
Talvez nos lábios dos beijos por dar
Talvez ao sabor de uma loucura presente
Que se abre a nós como uma nuvem de par em par
Deixa que a vida nos leve de regresso ao infinito
Àquele momento único do sorriso aberto
Na roda de saia que dança o meu grito
E que depois me adormece num abraço deserto
Avança devagar que há um bule a partir
Não risques os sonhos com desenhos sem sentido
um dia, quem sabe, saberei se novo sorrir
À passagem do amor que me foi já perdido
Pode ser que as sombras se pintem
Se transformem num enorme e infinito mar
Pode ser que as sombras te acolham
O fruto que tens no peito para tanto amar
Pode ser que as sombras se transformem
Numa grande história ao redor do seu enredo
Pode ser que as sombras te acolham
As sementes que tens em ti à deriva do medo
Pode ser que as sombras se fundam
Nas telas que o teu coração traz ao amanhecer
Pode ser que as sombras te acolham
O futuro nos passos de uma viagem por fazer
Rompes o silêncio
Na inquieta prisão
Em mais um dia em vão
Em que o futuro se perde aqui
Rompes o silêncio
E nem sequer te procuras a ti
Chamas pelas mãos
Nas ruas de um passado
Perdido e já morto
Na noite em que te fugi
Chamas pelas mãos
E nem sequer te procuras a ti
Cais na raiva de estar
Na penumbra dos caminhos
Que se fundem nos fantasmas
Daquele parto que nunca te servi
Cais na raiva de estar
E nem sequer te procuras a ti
Leva o meu corpo
Sobre o tempo dos silêncios
Urge a água e a terra
O fogo e a erva
Sobre a pedra das histórias ancestrais
Leva o meu corpo
No teu cais
Leva o meu corpo
Nas ruas perdidas da grande cidade
A mão da Núria
E o voo
As manhãs das novas tentativas
Leva o meu corpo
Para que vivas
Leva o meu corpo
Tão fraco das viagens
E tão forte das viagens
O caos secreto da nova estrada
Leva o meu corpo
Não me peças nada
Leva o meu corpo
O rio plantado em mim
As pontes e os passos
De lá para cá
De cá para lá
Brilhante como um colar
Leva o meu corpo
Mas deixa-me ficar
Canção do Coração.
Todo o coração
Está coberto de razão
Ele é vento e erosão
Terra firme e raiz forte
Vejo um brilho
no teu peito
está escondido
e eu respeito
apagaste a lamparina
por preguiça e despeito
refrão
O meu coração
Já foi fogo
Já foi lava e vulcão.
Agora é triste basalto
Rocha fria e escuridão.
Vem deitar-te no meu braço
Pegar fogo com bagaço
Desenhar só mais um traço
E deixar acontecer
Resgata em mim
O que foi de ti
Não deixes morrer na aurora
Faz-me tua aqui e agora
Há-de haver uma noite
Em que estar a teu lado será lua
Iluminando o carinho doce das mãos
Que ainda se perdem no vazio da rua
Há-de haver uma noite
Em que as praias serão abrigo certo
Perdendo o tempo todo dos nossos ventos
Aqueles que nos trazem de novo para perto
Para quê a noite assim
Entre medos, desejos e silêncios de olhar forte?
Talvez seja hora de amanhecer a alma
Que nos une num leito solto que nos conforte
Talvez seja dia outra vez
Quem sabe no alto do nosso viver
Porque as noites são cantos em mim
Sempre que contigo fico pelo nosso anoitecer.
Acreditas no amor, Pequeno Príncipe?
Qual, Pequena Pantera?
O amor. O verdadeiro amor.
Depende...
Depende?
Sim, depende.
Depende de quê?
Da idade.
Da idade?!!! Do amor?
Não. Dos amantes.
E porque dizes isso, Pequeno Príncipe?
Ora, porque o amor não é sempre igual, Pequena Pantera.
O verdadeiro, certo?
Sim. Certo.
Então acreditas no amor...
Não disse isso. Disse que depende.
Por isso mesmo...
Desculpa?
Sim. Se não acreditasses no amor não vinhas com essa história da idade. Olha, a propósito: porque puseste uma fotografia de uma casa em ruínas neste texto?
Fui...
Rasga esta noite de silêncios quentes
Para que sossegue a vertigem que trago no corpo
Amarra o soluço e a ira
E deixa uma flor sobre mim.
Posso ser cinza, posso ser jardim…
Contempla, simplesmente, sem pedir nada
Que a vida está para além dos teus olhos
Faminta e livre
Em cada canto da sua prisão.
Posso ser cinza, posso ser chão…
O teu corpo dança sobre o mundo
Como aquele pássaro solene
Que brinca e seduz
Vai a alma junto ao sabor do cheiro
Das flores do teu olhar
E tudo é muito mais que luz
O teu corpo dança sobre a vida
Como a grande árvore do penhasco
Para onde tudo me conduz
Vai o sangue no seu rio de fome
Pelo leito das acácias
E tudo é muito mais que luz
O teu corpo dança sobre o ser
Como as voltas das nuvens efémeras
Que pintam muito mais do que supus
Vai o sonho penetrando sem permissão
Nas curvas fortes das ilusões
E tudo é muito mais que luz
Que de um voo se faz caminho
Onde algures, quem sabe, uma voz
Apenas na inquieta fome de ser carinho
No grito silencioso de um rio na foz
Que de um céu se faz castelo
Nos vértices de cada saudade
Apenas na inquieta fome de ser belo
O amor que fica vagueando pelos cantos da cidade
Que de um lugar nosso se faz eterno
Por ventos e mares que sempre enjeito
Apenas na inquieta fome do tanto que é o inverno
Que queima a primavera que nasce no meu peito
O âmago das cicatrizes
Raiam nos lugares abençoados da mão
Rompem pelos dias felizes
Com o sopro tímido do coração
Com a alma de um desassossego forte
Que nos empurra para dentro das cores da morte
O âmago de nós em forma crua
Tal os mistérios das avenidas grossas
Por fora e por dentro, a mesma vertigem nua
Das voltas que ainda fazemos nossas
Com a alma das cores da morte
Que nos empurra para um desassossego forte
Esquecido no caos da terra
Silêncio sobre o corpo nu
O medo tão fundo como tu
Por entre as ruínas e a guerra
Planta um abraço em semente
Pode ser abraço terno e forte
Um voo liberto no alcance do norte
Onde vivam amores de toda a gente
O campo de flores sobre o olhar
Janelas e rostos prontos na palma da mão
Há um mundo inteiro por peneirar
À luz da tua alma e do teu coração
A casa sobre o sol a espreitar
Pronta que está, sedenta no seu despiste
Há um mundo inteiro por peneirar
No alto de um corpo que recusa ser triste
O futuro é um ponto só para alcançar
Que está pronto o leito feito ninho
Há um mundo inteiro por peneirar
E este é mesmo o teu caminho!
Há uma luz no meu caminho
Mesmo quando chegas demasiadamente perto.
Um sussurro que chega de mansinho
Uma flor a crescer no deserto.
Há uma luz no meu olhar
Quando cantas só para mim.
E fico simplesmente a ver-te cantar
Como se isso nunca chegasse ao fim.
Há uma luz na palma da minha mão
Quando pedes que as tuas sejam minhas.
E tu vais dizendo na tua sofreguidão
Que fique aqui, contemplando as andorinhas.
Há uma luz no fundo deste sonho meu
Semeado tantos mares em versos de amor.
O comboio nem sequer estremeceu
Nos vazios que amparam a dor.
Há uma luz quando quero a minha vida
Mesmo que sejam secas as caminhadas.
Por isso é que me perco nas avenidas
Quando se dão à luz das madrugadas!
Jorra o tempo sobre o leito
Uma corrente feita amor, feita prisão
Ficam silêncios por preencher
E uma árvore perdida na solidão
Corre o tempo pelo emaranhado
De um fogo que me ardeu na mão
Fica o frio gritando a saudade
E uma árvore perdida na solidão
Falta-me a tua história ecoando na foz
Deste rio que se espalha pelo chão
Fica um desassossego sem rosto
E uma árvore perdida na solidão
Falta-me a tua história do tanto que é fonte
Em tudo o que me aconchega a inquietação
Ficam apenas vazios de nada querer
E uma árvore perdida na solidão
Acresce ao sabor do tempo
O desejo quente das passadas
O alvoroço nos canteiros
Das sementes nunca pisadas
Acresce ao sabor de mim
O sangue deambulante nas entradas
As escamas da flor em desespero
Das manhãs silenciosas e não amadas
Acresce ao sabor de ti
A triste ausência das horas ocupadas
O perfume que se derrama sem certeza
Do futuro em fomes já ultrapassadas
Trazes o tempo nas mãos
Em versos soltos nos teus olhos
Procuras o toque a medo
Escorregas sobre o voo
Resolves miragens
E depois choras…
Porque então o caos
No vazio tão cheio da virtude?
Porque a inquieta procura
Nas frases escolhidas?
Porque o lugar?
Um dia serás flor.
















